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A cozinha afeto

Eu cresci entre quatro cozinhas e, cada uma delas, me constitui como cozinheira:

Minha mãe é cozinheira e trabalhou por anos em grandes refeitórios. Cresci em meio a panelas de frituras, uniformes brancos no varal e batatas fritas em noites especiais. Ela tem o melhor arroz do mundo e uma mão maravilhosa para os pães caseiros. Além disso, ela sabe que quando passo um tempo longe, volto sedenta por feijão e sempre me espera com uma panelada dele novinho, temperado e fumegante. É nosso código afetivo entre mãe e filha faz muito tempo. 

Da minha avó materna carrego o gosto pelo alho, pela pimenta-do-reino e pela salada de repolho com muito vinagre, mas também veio por ela o gosto pela leitura e pelas palavras. Ainda consigo sentir o cheiro da carne assando na forma redonda já craquelada pelos anos de uso. O cheiro de alho assado pela casa é um dos aromas que marcou minha infância, assim como o cheiro dos livros e das revistas que ela mantinha em um balaio de vime ao lado do sofá.

Da minha avó paterna, o gosto pelas conservas, pelo molho vermelho de sardinhas (que ela cobria a pizza dos cafés de domingo). Na lembrança o bolo de arroz e cravos, o doce de coco de colher que sempre que encontro algum pelos restaurantes da vida, provo, como numa tentativa de achar aquele gosto perdido nos dias do sítio em Gravataí. O pomar com abacate, nozes pecan, uva japonesa, caqui, laranja, limão e morangos silvestres, estes plantados um tanque de cimento aposentado. O cheiro de lenha do forno, o cheiro de biju, de pão e de laranjas sendo espremidas para o suco do almoço. Meu gosto por cítricos começou aí, tenho certeza. Ah, nessa época também nasceu o gosto pelo cheiro da chuva sobre a terra vermelha.

Na cozinha de uma grande amiga, meu primeiro contato com a culinária italiana. Polenta com frango, crem, suco de uva, geleia caseira de uva, pés de marmelo, figos no quintal, parreira no fundo de casa, uvas geladas no verão, crostoli quando eles voltavam da serra gaúcha.

Foi através dessas mulheres, tão diversas entre si, mas tão próximas na capacidade de alimentar as famílias, que me constituí, antes de qualquer coisa, uma comedora.

Meu primeiro experimento no fogão eu lembro bem, foi um bolinho frito de farinha de milho, açúcar e ovos. Lembro do orgulho que deu saciar a fome com algo que eu mesma tinha preparado. Lembro exatamente daquela sensação que mistura algo muito primitivo e elementar que é matar a fome e a consciência de quão poderosa é essa habilidade. Até hoje provo dessa sensação quando preparo algo que me surpreende. É uma sensação física, dentro do peito, um calorzinho que pode, muitas vezes, marejar os olhos. Eu sou dessas pessoas que se emociona com os sabores e, embora cozinhe profissionalmente há algum tempo, ainda mantenho esse romantismo com os preparos, com os sabores e com as surpresas que as técnicas bem empregadas podem proporcionar.

A cozinha profissional

Em 2008 eu tive a oportunidade de escrever para um jornal especializado em enogastronomia e pude conhecer uma faceta superimportante do mundo gastronômico. Foi uma experiência muito bacana e única, mas não foi ela que me impulsionou para a cozinha.

Em um momento em que eu estava totalmente desmotivada com a faculdade, li um artigo sobre a identidade italiana a partir da culinária e ali conheci Artusi. No mesmo ano, 2010, comecei a escrever o blog Cucina Artusiana e ganhei novo fôlego para terminar a graduação. A escrita, a pesquisa e a aproximação com a cultura gastronômica italiana me levaram a querer mais. Assim, acreditando que seria uma baita tradutora de textos culinários, me inscrevi no curso de cozinheiro profissional, para saber mais sobre a terminologia técnica da gastronomia. Jamais imaginei, naquele primeiro dia de aula de cozinha, que só “sairia” dela, 05 anos depois.

Em 2011, ano em que terminei a graduação em Letras – Italiano, fiz o curso de cozinheiro profissional em Porto Alegre e, em 2012, decidi fazer uma viagem gastronômica pela Itália. Lá permaneci por três meses comendo, bebendo, parlando e estudando gastronomia. Na volta ao Brasil comecei a trabalhar em pequenos eventos, depois trabalhei loucamente numa marina e em 2013 comecei a dar aulas de culinária italiana em centros culturais... Mais ou menos nessa ordem. Em 2014 eu e José abrimos o Armazém Artusi, uma espécie de trattoria-delicatessen que tinha a maior cara de casa de vó. Foi uma experiência muito doida, pois, ser cozinheira, balconista, chef e chefe não é a coisa mais fácil de conciliar com dias de apenas 24h. Ficamos com esse negócio por 2 anos e, em 2016, quando tirei férias para cozinhar em Palermo, me dei conta que não era essa a relação que eu queria manter com a gastronomia. O fato de ter energia alguma para pesquisar e escrever estavam me deixando muito frustrada e, na volta da Sicília, decidi vender o Armazém e voltar à universidade. Em 2017 participei da seleção de Mestrado no Instituto de Letras da UFRGS e fui aprovada para desenvolver minha pesquisa sobre autoria culinária em, adivinhem, Pellegrino Artusi.

Bacharelado em Letras-Italiano, curso de cozinheiro profissional aqui e na Itália, traduções culinárias, viagens gastronômicas, auxiliar de cozinha, professora de culinária, colunista de enogastronomia, blogueira de gastronomia, chef de cozinha, empresária no ramo da alimentação e agora pesquisadora de discursos sobre alimentação. É desse lugar, desse caldeirão cheio de andanças, de sabores e de aromas, de alguns dedos cortados, outros queimados, de muitas páginas lidas e tantas outras escritas, é daqui que falo, que escrevo, que cozinho.

Prazer, meu nome é Carla Maicá, e eu adoro cozinhar e escrever.


Eu, pelos traços da minha amiga Alice Gussoni

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