fevereiro 05, 2013

Minne di Sant'Agata - [Seios de Santa Ágata]



"Foi graças à devoção de minha avó que todo dia 05 de fevereiro a família Badalamenti se reunia para comemorar a festa de suas Ágatas com um almoço em grande estilo, que terminava com os doces votivos - as minne de santa Ágata justamente - feitos à mão por ela mesma, por graças recebidas ou a receber.

Minha vó, de quem levo o nome, tinha estabelecido que eu a ajudaria na cozinha na delicada preparação dos docinhos e me designou protetora oficial da receita e sua única herdeira.

Na família Badalamenti a herança passava aos descendentes segundo o direito do mais velho: isto é, o patrimônio ia para o primeiro filho macho, que tinha obrigação de conservá-lo, mantê-los guardado e passá-lo integralmente ao próprio descendente. Embora esse direito tivesse sido abolido após a unificação da Itália, em nossa família, aliás, em toda a região meridional, permaneceu o costume de previlegiar o filho mais velho, reconhecendo às mulheres um dote em dinheiro que tinha o objetivo de prevenir disputas longas e violentas. Minha avó, feminista ao seu modo, quis legar a mim o mais precioso bem da família, a receita das minne de santa Ágata.



Na cozinha, na penumbra era realizado o sagrado ritual da preparação dos doces, do qual eram excluídos os outros parentes, que, incapazes de uma fé genuína, banalizariam o sacrifício da minha avó e causariam irritação à Santuzza, que poderia até retirar a sua benévola proteção.

Eu lavava as mãos com cuidado especial, o mesmo que anos depois eu usaria para assistir aos partos no hospital. Defronte à mesa de mármore eu trabalhava a massa e o creme de ricota com dedicação e seriedade. Um pouco para me entreter; um pouco para me instruir; um pouco para me contagiar com sua fé religiosa ingênua, sincera e apaixonada, minha avó me contava a vida da Santuzza, de modo como a conhecia."


Esse trecho foi retirado do livro Mamas Sicilianas (Il conto delle minne), segundo livro da siciliana Giuseppina Torregrossa, autora que tive o prazer de conhecer ano passado, quando um amigo me indicou a leitura. 

Acho que terminei o livro em menos de 48h e ele tem sido um presente constante às minhas amigas, pois é um livro que trata da força feminina e também de suas vulnerabilidades. É um livro intenso, curioso, sensual e  muito feminino. Foi nele que conheci a história de Santa Ágata - mártir siciliana que entre outras atrocidades, teve seus seios cortados-, e de suas cassatas que tantas sicilianas preparam no dia 05 de fevereiro.


Nem preciso dizer que indico muito a leitura.

Minne di Sant'Agata - Cassatinhas de Santa Ágata

Massa

600 gramas de farinha de trigo peneirada
120 gramas de banha
150 gramas de açúcar de confeiteiro
Essência de baunilha
02 ovos

Corte a banha em pedacinhos e trabelhe com as mãos junto com a farinha. Quando os dois ingredientes estiverem misturados (tipo uma farofa), junte o açúcar de confeiteiro, os ovos e a baunilha. Sove rapidamente, e se necessário, molhe as mãos para dar mais umidade à massa.

"Quando a massa adquirir uma consistência macia e elástica, que permita afundar os dedos como se fosse um seio voluptuoso, cobrir com uma pano de prato e deixar descansar."

Recheio

500 gramas de ricota de leite de ovelha (não consegui, usei creme de ricota)
100 gramas de frutas cristalizadas em pedacinhos (usei damasco, tâmaras, cidra, laranja, figo turco)
100 gramas de lascas de chocolate
80 gramas de açúcar

Misture a ricota e o açúcar até obter um creme. Acrescente as frutas picadas e o chocolate. Deixe descansar na geladeira por 1h.


Unte com manteiga e farinha forminhas redondas* para o doce adquirir a forma de um seio. Abra a massa bem fininha e forre as forminhas. Coloque o recheio e crubra com mais uma camada de massa. Feche as bordinhas, cuidando para que não saia recheio.

Coloque as forminhas, viradas com as bordas para baixo, em uma forma untada e leve ao forno pré aquecido a 180ºC. Asse por 30 minutos. Retire do forno e deixe esfriar.

*para o efeito arredondado é necessário uma forma meia esfera. Consegui a "luna" no Barra Doce.

Glacê

350 gramas de açúcar de confeiteiro
02 colheres (sopa) de suco de limão
02 claras

Bata as claras em neve com uma pitada de sal. Junte o açúcar, o suco de limão e continue misturando até obter um creme branco, brilhante.

Retire as cassatinhas das formas e coloque em uma grade. Derrame o clacê em cada uma delas para cobrir.

"Para as simples casssatinhas se transformarem como que por encanto em seios maliciosos, minne completas, decore essas magníficas, brancas e perfumadas esferas com uma cerejinha cristalizada."




6 comentários:

  1. Ficaram lindos e bem perfeitos.
    Apetece mesmo dar uma dentadinha
    bjs

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  2. Obrigada pela indicação do livro. A gente não quer só comida...

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  3. Oi Carla!

    No princípio, confesso, achei que vc estava falando da sua avó...rs
    Até que continuei lendo e descobri a verdadeira autora...rsrs
    Muito interessante (e triste)esse trecho do livro. Eu não conhecia esse doce.

    Adorei a aparência, achei fofinha e delicada, como nós mulheres! rs

    Só uma perguntinha, a banha que vc se refere é a gordura vegetal hidrogenada, né? Pois nos mercados sempre encontro 2 tipos: a banha, que é de porco (e na embalagem está escrito "banha") e a gordura vegetal hidrogenada (que não vem escrito "banha"), e que geralmente podemos utilizar em doces...
    Falo isso pq na adolescência, qdo fui fazer uma receita de bolachinhas, a receita pedia "banha" e eu comprei banha... mas, só depois vi que era de porco! kkk... Vai vendo só a lerdeza da pessoa! dãããr...kkk

    Então, quero ter certeza!...

    Beijos e desculpa pelo longo comentário! ;-)

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  4. Carla, adorei a receita mas devo te confessar que já liguei para a Cultura e reservei o livro!!! obrigada pela dica

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  5. Me encanta esta receta luce muy bonita y exquisita,abrazos y abrazos.

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  6. Fiquei um tempo sem vir e tudo continua lindo e delicioso por aqui...como sempre esteve!Obrigada por seu carinho!
    Bj,

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