Cena I - Firenze
Restaurante - Hora do Almoço.
Casal na mesa ao lado da minha:
Mulher olhando o pedido da outra mesa: - O que eles pediram? Pão com feijao? O que é aquilo?
Homem: - Boh!
Mulher: É feijão sim, e muito feijão. Fatias de pão com feijão. Que estranho. A gente pode fazer em casa.
Homem: Sim, podemos.
Eu (metida como só): Mas de que região vocês são?
Mulher: Somos de Veneza.
Eu: Ah.
Pão com feijão (crostini coi fagioli) na região da Toscana é típico, por isso o estranhamento da mulher. Começamos a conversar sobre as diferenças gastronômicas entre as regiões italianas e como era uma cozinha rica, cheia de variantes. Falei para eles que estava fazendo uma viagem gastronômica e pesquisando Pellegrino Artusi. Para minha surpresa, esse senhor nasceu na mesma cidade do Artusi e ficou muito contente quando disse que havia estado em Forlimpopoli. Nossa conversa se alongou em um cafezinho onde falei mais de Artusi para eles - procuramos juntos no mapa a casa onde Artusi morava e vendia os seus livros em Florença. Falamos de receitas de família e ela me contou que a nonna sempre fazia um doce maravilhoso para a primeira comunhão dos netos. Ficou de me mandar a receita. Contou também que na família há uma edição super antiga de Artusi e que é guardada com todo carinho. Nos despedimos com promessa de contato e troca de receitas.
Cena II - Siena
Eu na Piazza del Campo, olhando com atenção todos os produtos expostos na vitrine da loja de produtos típicos toscanos, e duas senhoras se aproximam.
- Que coisas bonitas, pena que fazem mal.
- O que faz mal na vida é não ter prazer. E comer isso é ter prazer.
Comecei a rir e disse que ela estava certa. Essa senhora me disse que sempre comeu o que quis, que nunca fez dieta e "essas coisas da moda" e "aqui estou eu, com 91 anos". Me contou que teve um restaurante por 35 anos em Siena e que fazia ela mesma a massa fresca. "Todo mundo vinha comer o que eu cozinhava". Disse que era cozinheira também e ela me disse: "Faz bem, faz bem. Cozinhar é uma das melhores coisas do mundo. Você vai gostar de seguir isso na vida". A outra senhora, que era mais nova - 85 anos-, esperava impaciente o final da nossa conversa e dizia: "vamos, vamos, não podemos ficar muito tempo de pé". A senhora cozinheira fez um "aff", segurou minha mão e desejou uma boa viagem. Nos despedimos com cumplicidade. Fiquei com os olhinhos marejados vendo elas se distanciarem.
Minha passagem pela Toscana foi marcada por esses dois momentos. Dois momentos que me deixaram em felicidade plena, pois foi justamente atrás disso que vim. Além de sabores concretos, queria ter esse tipo de contato, que sinceramente, é o melhor sabor dessa minha viagem. Quando você começa a falar de comida com um italiano é um mundo que se abre. Todos falam com propriedade, todos falam de suas cozinhas regionais e afetivas. Falam da mamma, falam da tipicidade dos seus produtos e claro, defenestram a comida do outro, como o napolitano que fez cara de nojo quando falei da polenta do Vêneto.
Tenho aprendido muito com cada conversa.
Infelizmente não pude fazer a Toscana do modo que imaginamos. Aquele jeito romântico de campos de girasóis que ficou no nosso imaginário depois do filme "Sob o sol da Toscana", pois esses lugares não são acessíveis sem carro. Mas mesmo assim, tentei absorver tudo que Florença e Siena podem oferecer.
O pão toscano, sempre sem sal, ótimo para
bruschetta. Quando a cestinha chega na minha mesa, sempre banho uma fatia com azeite de oliva, sal e pimenta e me delicio enquanto meu prato não vem, mas sempre deixo uma fatia para a
scarpetta.
Cinta con rosmarino e contorno di finocchio - Corte de porco com alecrim e acompanhamento maravilhoso de erva-doce. Nhamnham.
Insalata di arancia e pinoli
O
vin santo para
inzuppare os
cantucci.
Porchetta - que eu virei fã e é o meu próximo desafio culinário.
Artusi na vitrine de um restaurante.
E muito vinho Chianti.
Uma das coisas que queria comer e não consegui foi a tradicional
bistecca fiorentina. Elas são vendidas no mínimo com 500kg, ou seja, muita carne para mim.